Desejo e excitação não são a mesma coisa

Marina Remiggi

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Desejo e excitação não são a mesma coisa

— e entender essa diferença muda tudo

Existe uma pergunta que muitas mulheres carregam em silêncio, especialmente a partir dos 40 anos: o que está acontecendo com o meu desejo?

Ele some em alguns momentos. Aparece quando menos se espera. Muda de forma, de ritmo, de como se anuncia. E quase sempre vem acompanhado de uma conclusão que faz mais mal do que bem: a de que algo está errado.

Na maioria das vezes, não está. O que acontece é que o desejo — especialmente o desejo feminino — é muito mais complexo do que aprendemos a acreditar. Uma das confusões mais comuns e mais prejudiciais é tratar desejo e excitação como sinônimos.

Eles não são.

Desejo: um processo que começa na mente

O desejo sexual é, antes de tudo, mental e emocional. Envolve motivação, interesse, fantasia e vontade de se conectar — com o próprio corpo ou com outra pessoa. No cérebro, esse processo passa pelo sistema límbico, responsável pelas emoções, e pela dopamina, associada à expectativa de prazer e à motivação.

O desejo depende profundamente de contexto: de como a mulher está se sentindo, do ambiente em que vive, da qualidade dos vínculos afetivos e do nível de segurança emocional que experimenta.

É possível sentir desejo sem que o corpo responda fisicamente. E é possível não sentir nenhum desejo, mesmo quando o corpo está saudável e funcionando bem.

Excitação: uma resposta do corpo

A excitação sexual é fisiológica. Envolve lubrificação vaginal, aumento do fluxo sanguíneo na região genital, sensibilidade ao toque e relaxamento muscular. Esses processos dependem do sistema nervoso parassimpático e de uma boa circulação sanguínea.

A excitação pode acontecer sem desejo — como uma resposta reflexa do corpo a um estímulo físico. E pode não acontecer mesmo quando o desejo está presente, especialmente em situações de estresse, cansaço acumulado ou ansiedade.

Um processo não depende do outro para existir.

O que o climatério tem a ver com tudo isso

Durante o climatério e a perimenopausa, a queda progressiva do estrogênio afeta os dois processos — mas de formas distintas.

No corpo, a redução do estrogênio pode diminuir a lubrificação natural, alterar a sensibilidade genital e tornar a excitação mais lenta. Isso é fisiológico, tem nome e tem caminho.

Na mente, as mudanças hormonais interferem nos neurotransmissores responsáveis pelo humor, pelo sono e pela motivação — o que inclui o desejo. Ansiedade que aparece sem motivo aparente, irritabilidade, sensação de distância do próprio corpo: tudo isso pode ser parte dessa transição e afetar diretamente o interesse sexual.

Nessa fase, muitas mulheres descrevem que o desejo mudou de textura. Vale entender o que isso significa clinicamente: não é necessariamente uma redução de intensidade, mas uma mudança na qualidade e na forma como o desejo se manifesta. Antes do climatério, ele costuma ser espontâneo — aparece sem aviso, como um impulso que precede qualquer estímulo. Durante a transição hormonal, esse padrão se reorganiza. O desejo passa a ser mais responsivo: precisa de condições para aparecer. Contexto seguro, vínculo afetivo, estímulo prévio, bem-estar emocional mínimo. O que antes despertava interesse pode deixar de funcionar. O ritmo fica mais lento. A conexão com o emocional se torna mais determinante do que o estímulo físico isolado.

Esse desejo não é menor. É diferente na forma como se anuncia.

Quando uma mulher percebe essa mudança, a conclusão mais comum ainda é "tem algo errado comigo" ou "estou ficando velha para isso". Nenhuma das duas corresponde ao que a ciência mostra. O que está acontecendo é uma reorganização hormonal e emocional que pede compreensão.

O Modelo de Duplo Controle

Os pesquisadores John Bancroft e Erick Janssen desenvolveram um modelo que ajuda a entender por que o desejo some ou se transforma. Propõem que o cérebro funciona, em relação à sexualidade, com dois pedais simultâneos:

Acelerador: estímulos que despertam o interesse sexual — segurança, vínculo, bem-estar emocional, conexão com o próprio corpo.

Freio: tudo que inibe a resposta sexual — medo, culpa, estresse, insegurança, pressão de desempenho, cansaço crônico, dor.

Quando o freio está pressionado — e no climatério, ele frequentemente está, por razões hormonais, relacionais e culturais — buscar mais estímulo não resolve. O que faz diferença é identificar o que está travando a resposta e agir sobre isso.

O desejo feminino tem um ritmo próprio

A pesquisadora Rosemary Basson mostrou algo que reorganiza completamente a compreensão do desejo feminino: em muitos casos, o desejo não precede a excitação. Ele aparece durante ou depois dela.

Esse é o chamado desejo responsivo — e ele é especialmente frequente em mulheres, tornando-se ainda mais comum com as transformações do climatério.

Não sentir aquele interesse espontâneo que aparecia sem aviso não é disfunção. Para muitas mulheres, nunca foi assim. Para outras, essa mudança de padrão acompanha a transição hormonal de forma natural.

Reconhecer isso é fundamental para sair da armadilha de se comparar a um modelo de desejo construído, em grande parte, com base em pesquisas feitas com homens jovens — e que não corresponde à experiência feminina real.

O erro mais comum

Quando desejo e excitação se confundem, surgem conclusões que aumentam o sofrimento:

"Se meu corpo não responde, é porque não desejo.""Se não sinto desejo, tem algo errado comigo.""Isso é coisa da cabeça."

Na maior parte dos casos, o que acontece é outra coisa: o corpo está se protegendo, a mente está sobrecarregada e o contexto hormonal, emocional e relacional não está favorecendo o prazer.

Isso não é frescura. É neurofisiologia.

Compreender essa diferença reduz a culpa, diminui a ansiedade sexual e abre espaço para um cuidado mais honesto — com o corpo, com as expectativas e com o próprio ritmo.

Cuidar do desejo nessa fase é cuidar de si

Entender como o desejo funciona e como ele se transforma no climatério não é um exercício teórico. É um ato de cuidado concreto.

Reduz medicalizações desnecessárias. Evita diagnósticos precipitados de disfunção. Abre a conversa com profissionais de saúde de forma mais clara. Permite que a mulher olhe para si mesma com mais generosidade.

Sexualidade não é desempenho. É relação entre corpo, mente e história. E essa relação muda — não termina.

No Grupo Climáticas, esse é exatamente o tipo de conversa que acontece. Um espaço online, ao vivo, conduzido por Marina Remiggi e Graziella Chantal, psicólogas especializadas em sexualidade feminina — para mulheres que querem entender o que está acontecendo com o próprio corpo, sem julgamento e com base científica. Agora em novo formato, Se esse artigo fez sentido para você, talvez esse espaço também faça. O link está em nusex.com.br/climaticas.

Referências bibliográficas

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais — DSM-5-TR. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.

BANCROFT, John; JANSSEN, Erick. The dual control model of male sexual response: a theoretical approach to centrally mediated erectile dysfunction. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 24, n. 5, p. 571–579, 2000.

BASSON, Rosemary. Female sexual response: the role of drugs in the management of sexual dysfunction. Obstetrics & Gynecology, v. 98, n. 2, p. 350–353, 2001.

WORLD ASSOCIATION FOR SEXUAL HEALTH. Declaração dos Direitos Sexuais. WAS, 2014. Disponível em: worldsexualhealth.net.

Marina Remiggi

Psicóloga Clínica e Sexóloga | CRP 04/23471 Especialista em Sexualidade Humana Fundadora do NuSex — Núcleo Especializado em Sexologia

Este artigo foi elaborado com base em conteúdo original produzido pela equipe NuSex e aprimorado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) para fins de estruturação, aprofundamento editorial e adequação ao formato de blog. O conteúdo científico, as referências bibliográficas e o posicionamento da marca foram fornecidos e validados pela profissional responsável. Todo o texto foi revisado e aprovado antes da publicação.reva aqui o conteúdo do post